A Importância de Viajar na nossa Saúde Mental

Hoje vamos falar de coisas um bocadinho mais sérias

Muito se tem falado sobre saúde mental, e desengane-se quem pensa que quando falamos de saúde mental estamos a falar de alguém que nasce com uma limitação cognitiva, não!

A nossa saúde mental é afectada por tudo aquilo que nos rodeia. O trabalho, as relações afectivas, os medos, as ansiedades e o stress em geral. Tal como cuidamos do nosso corpo, exercitando-o para que se mantenha saudável. Também o devemos fazer com a nossa mente. Mas como?

Fui à procura desta e de outras respostas para este tema, e surgiu-me esta questão:

Será que Viajar tem impacto na nossa saúde mental?

paisagem ilha de são miguel açores portugal

Paisagem da Ilha de São Miguel – Açores – Portugal

Para responder a esta e outras questões, e nos dar uma perspectiva profissional sobre o assunto fui conversar com a psicoterapeuta Catarina Martins. Coordenadora Clínica da Clínica de Psicologia e Coaching – Learn2be. Lancei para a mesa 5 perguntas para que a Dra. Catarina comentasse.

A opinião de um profissional

Saúde Mental, em que consiste especificamente?

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o conceito “Saúde” é definido como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Ou seja, hoje em dia, a saúde mental já é contemplada na própria definição global de saúde.

É importante referir que saúde mental não corresponde apenas à ausência de doença, mas sim a um estado de equilíbrio que nos permite enfrentar as adversidades, ser resilientes e, essencialmente, estarmos bem connosco, com os outros e com o meio que nos rodeia.

Mykonos – Grécia

De certo que a Expressão Mente Sana em Corpo São nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje. O corpo são é do senso comum que se pode alcançar com desporto e uma boa alimentação. Mas e a mente sã? Qual a forma de a alcançar?

Penso que, quase de forma provocatória, até poderíamos dizer que não há corpo são sem mente sã. Cada vez mais a investigação nos indica que os efeitos de uma mente desequilibrada se refletem no nosso corpo através de doenças auto-imunes, desajustes hormonais, somatizações.

Em consulta, percebo que as pessoas que procuram psicoterapia apresentam frequentemente queixas físicas que melhoram com o avanço da terapia.

Acredito que uma mente sã precisará de um corpo são, tal como o corpo são precisa de uma mente sã. Mas diria que não existe um sem um outro. Não nos é possível estar bem fisicamente se não tivermos uma mente equilibrada, tal como não é possível termos uma mente equilibrada sem isso se refletir no nosso corpo.

Rotinas saudáveis de sono, alimentação, exercício contribuem para a nossa saúde mental, mas sobretudo, para que tudo isto aconteça, precisamos de conseguir entender e satisfazer as nossas necessidades emocionais, pois estas acabam por ser os nossos principais motores. Se não as compreendermos e conseguirmos dar resposta, entramos em situações de compensação e desequilíbrio, que afetam de forma quase inevitável a nossa autoestima, as nossas decisões, relações, e por tanto, o nosso bem-estar biopsicossocial.

Viena Áustria Albertina Museum

Viena – Áustria

Porque é ainda tão difícil assumir-mos, ou talvez a palavra mais adequada seja interiorizarmos, que cuidar da mente deve ser um acto quotidiano?

Culturalmente estamos “programados” para cuidarmos de nós quando a doença aparece e não prevenirmos o seu aparecimento. Ao contrário da saúde física, que hoje bem sabemos que se degrada com os hábitos pouco saudáveis que adotamos, e que, por esse motivo, faz com que cada vez sejamos mais responsabilizados pelo meio para alterarmos hábitos por forma a prevenirmos a doença, na saúde mental não se passa do mesmo modo.

Aqui entra o estigma relativamente aquilo que é a patologia mental. É vista como algo apenas restrito a grupos de pessoas mais marginalizadas. Ninguém acredita que é ou vai ficar “maluco”. Enquanto olharmos para a doença mental como loucura, não iremos tratar a nossa mente com o devido respeito e responsabilidade.

O que pretendo transmitir é, sobretudo, que, enquanto a saúde física é vista hoje já com uma maior responsabilidade por parte do individuo que procura cada vez mais de forma ativa alimentar-se bem e cuidar do seu físico, a saúde mental, talvez porque ainda estamos numa fase mais embrionária a este nível, ainda não teve tempo de se assumir como algo que também requer prevenção e que também ela pode ser nutrida no sentido de nos mantermos saudáveis a este nível.

Artigos como este, e o trabalho dos media, no geral, têm e terão no futuro um papel fundamental para que as pessoas comecem a ver a saúde mental com a responsabilidade que cada um de nós tem para nos mantermos saudáveis.

Belém Lisboa Portugal

Belém – Lisboa – Portugal

Agora a “grande” questão que me fez pesquisar sobre este assunto. Qual o impacto que uma viagem, ou até mesmo um passeio, por mais curto que seja, tem no nosso equilíbrio psicológico? No meu caso eu sei que tem um impacto enorme, porque adoro viajar e passear. E existem alturas em que preciso de me afastar da rotina ou de estar em contacto com a natureza. Mas será assim para todas as pessoas, ou só para os amantes de viagens?

Achei muito interessante trazeres este tema Sónia. As pessoas que já vão assumindo a saúde mental como parte da sua própria responsabilidade procuram hoje fazer meditação, psicoterapia, e outros tipos de terapias/hábitos no sentido de se conhecerem e de se nutrirem. Apresentares-me este tema fez me refletir um pouco sobre de que forma as viagens poderiam também elas ser nutritivas e reveladoras ao nível do auto conhecimento.

Viajar implica vários aspetos específicos como a escolha do local, a preparação, a viagem em si e o regresso. No meio deste processo, existe a oportunidade, quase terapêutica, de entrarmos em contacto connosco, com as nossas limitações e potencialidades, com aquilo que tememos e desejamos. Este percurso, leva inevitavelmente a uma conversa com a nossa autoconfiança, e no limite com a nossa autoestima, por nos colocarmos numa posição de desafio e descoberta.

pirâmides egipto viagens

No Egipto a sensação é que estamos sempre num filme de época.

Além disso, viajar leva-nos a um exercício fundamental a qualquer ser humano, sair da rotina que nos dá segurança (também ela essencial ao nosso equilíbrio pois dá-nos a previsibilidade necessária), para nos expormos à novidade. A novidade é fundamental para que nos sintamos ligados às várias partes de nós mesmos que vamos mantendo mais ou menos adormecidas na nossa vida quotidiana.

Paris França

Paris – França

Também nos faz tomar contacto com pessoas boas além de nos tornar mais humildes. Ou seja, perceber que existem pessoas dispostas a ajudar, ao contrário do que muitas vezes sentimos nos nossos meios, porque também não nos expomos tanto ao tipo de situações que acontecem quando viajamos como pedir informações ou mostrar curiosidade genuína, estando mais disponíveis para a relação.

Ajuda-nos a trabalhar a nossa coragem e autoconfiança pelas inúmeras situações que temos de antecipar e resolver no momento. A chamada “arte do desenrascanço”.

Permite-nos reduzir os nossos níveis de stress pois relaxa-nos, o que nos leva a sentir mais felizes.

Num mundo tão competitivo como é o nossos hoje, viajar também nos trará vantagens competitivas porque nos aumenta a perspetiva e a visão, por vezes limitada, dos contextos onde estamos.

Estimula a nossa criatividade, porque nos faz criar ligações neuronais que não ocorreriam se ficássemos sempre no mesmo local e rotina.

Atenas - Grécia - Cruzeiro Splendour Of The Seas

Atenas – Grécia – Cruzeiro Splendour Of The Seas

Viajar acompanhado é também uma forma de também fortalecer relações pois a novidade associada à relação é um fator protetor. Basta pensarem em verem a pessoa com quem têm uma relação a ter reações novas, experiências novas, conversas novas. Tudo aquilo que não acontece quando existe uma rotina estabelecida (também ela essencial).

Viajar sozinho promove um movimento, como já disse antes, terapêutico, no sentido em que a terapia tal como a viagem, promove sair da zona de conforto e descobrir coisas novas sobre nos mesmos. Virão com certeza diferentes.

Ilha da Madeira Portugal

Ilha da Madeira – Portugal – A Primeira vez que viajei sozinha

E por fim, acabamos por nos ir tornando pessoas diferentes pelas experiências que vivemos, ora se as viagens promovem um contacto com culturas diferentes, idiomas diferentes, locais diferentes, viajar irá sem dúvida influenciar-nos enquanto pessoas certamente.

E para finalizar vou-te pedir que nos deixes alguns conselhos sobre este tema

Uma das sugestões que quero fazer é não arranjar desculpas. Muitas vezes a maior desculpa para não viajar é a quantidade de dinheiro que se despende para isso. Os efeitos positivos das viagens sentem-se sobretudo pelo fator descoberta, exposição à novidade. Assim sendo, isto pode acontecer tanto na Tailândia, como num local do nosso país que ainda não conhecemos. Para não falar das vantagens que temos em viver num país com a diversidade do nosso.

Miradouro do Arco da Rua Augusta Lisboa Portugal

Miradouro do Arco da Rua Augusta – Lisboa – Portugal

Permitam-se sair da zona de conforto. Talvez esta frase seja uma das que mais digo enquanto psicóloga. Genericamente sabemos que a zona de conforto é o local onde nos sentimos confortáveis, mesmo que estar nesse sitio seja por vezes doloroso. Pode parecer contraditório, mas todos nós, de uma forma ou de outra, mantemos hábitos, situações, pessoas, nas nossas vidas por ser o que já nos é familiar e confortável, mesmo que já não nos tragam felicidade ou bem-estar.

Subir as Dunas para assistir ao Nascer do sol no deserto

Dunas de Erg Chebbi – Deserto de Merzouga (Sahara) – Marrocos

Viajar é um dos melhores exercícios para sairmos destas zonas de conforto que nos trazem uma sensação de familiaridade, mas que nem sempre nos permitem crescer e evoluir. Se todos conseguirmos fazer, ao viajar o exercício de ir, abraçar a experenciar e voltarmos mais ricos trazendo para as nossas vidas um pouco das aprendizagens que fazemos nas viagens, acredito que esse processo será com toda a certeza enriquecedor para todos nós e para as pessoas e contextos ao redor. Como dizem os colegas do coaching “não há erros só há feedback”, e esta é mais do que uma aprendizagem para as viagens, é uma reflexão para a vida.

Sobre a Dra. Catarina Martins

Sou psicóloga Clínica, formada na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, especificamente em Psicologia familiar e sistêmica. Ao longo do meu percurso profissional e pessoal, tenho procurado novas abordagens para complementar aquele é o meu trabalho, potenciar o bem estar e equilíbrio

Dra Catarina Martins Psicoterapeuta saúde mental

Dra Catarina Martins

daqueles que me procuram. Depois de me formar em terapia cognitivo comportamental e sexologia/terapia de casal, descobri o EMDR e, neste momento, estou a formar-me em constelações familiares.

O objetivo? Sempre o mesmo, melhorar-me para poder promover o mesmo processo na maior matéria prima que temos, as pessoas e o seu potencial.

Neste momento colaboro com um projeto que me é muito caro, a Clínica de Psicologia e Coaching Learn2Be, onde, enquanto equipa, procuramos estar à altura dos desafios que vão surgindo, para dar resposta é ser co-autores de uma nova história com quem assume o comando da sua própria vida.

 

É um orgulho testemunhar processos de mudança e acredito que está ao nosso alcance sermos mais e melhor porque o nosso sucesso só depende daquilo em que nós escolhemos nos focar.

 

Espero que tenham gostado, cuidem da vossa mente e até ao próximo Post. Não se esqueçam de comentar, de partilhar e de dar aquele like amigo 🙂

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